A MARINHA E A GUERRA CIVIL NA CHINA NA DÉCADA DE 1920
Em 10 de Novembro, o Círculo do Mar realizou, no Palácio da Independência, uma Sessão - Conferência subordinada ao tema “A Marinha e a guerra civil na China na década de 1920” a qual teve por oradores o Prof. João Moreira Freire e o Cte. António Cervaens Rodrigues.
Abriu a Sessão o Coordenador do Círculo do Mar, Cte. Temes
de Oliveira que, para além de apresentar os oradores, enquadrou o tema na relevância
que, à época, Portugal teve no contexto do Oriente, nomeadamente China e Japão,
e que, certamente, foi razão fundamental para as boas relações que ainda hoje
existem.
O Prof. João Moreira Freire foi o primeiro orador que logo anunciou ir abordar a “primeira fase” da Revolução Chinesa, vista pela proximidade com que a Marinha portuguesa seguiu esses acontecimentos, sobretudo entre 1922 e 1932, quando para aí enviou vários navios de maior porte para acautelar não só a defesa de Macau, mas também para salvaguardar os interesses comerciais e os nossos cidadãos residentes em Cantão e Changai, o que está contido no livro de sua autoria publicado pela Academia de Marinha em 2020 com o título “A Acção Naval e Diplomática Portuguesa na Grande Crise da China (1925-1928)”.
E, assim, recordou brevemente alguns pontos mais significativos da história da China, incluindo as “guerras do ópio” que levaram à assinatura dos chamados Tratados Desiguais (de Nankin, 1842 e de Tientsin, 1860), que permitiram a abertura dos portos chineses e a navegação comercial de navios nos seus principais rios (Yang- Tze, Rio Amarelo e Rio das Pérolas), a circulação de missionários cristãos, o estabelecimento de “concessões” territoriais nas suas principais cidades e a disponibilização da ilha de Hong-Kong aos ingleses e que beneficiou também a posse portuguesa de Macau.
Face à profunda crise do regime Imperial, a República foi proclamada em Pekin em 1911, praticamente em simultâneo com Portugal, mas mantendo-se o país numa caótica situação política durante os anos seguintes. Havia aqui o lastro de um imenso campesinato muito pobre, demografia galopante e enormes desigualdades sociais, mas com as cidades costeiras já urbanizadas ao estilo moderno e com um operariado activo na reivindicação dos seus interesses.
A China entrou
na guerra contra a Alemanha em Agosto de 1917, quase só nominalmente, para se
poder sentar entre as potências vencedoras na Conferência da Paz de Versailles
em 1919. Mas a não atribuição de compensações de guerra suscitou a ira dos estudantes
chineses, a qual promoveu a grande jornada de protesto nacionalista do “4 de Maio”, que espoletou a agitação
dos anos seguintes, com o Partido Comunista a ser criado em 1921 (tal como em
Portugal), um acordo diplomático entre Moscovo e Pequim em 1924 e o jovem
nacionalista Chiang Kai-Shek a frequentar uma escola do Exército Vermelho em
Moscovo dedicada a preparar futuros líderes político-militares pró-soviéticos
em diversos países das periferias mundiais.
A agitação “anti-imperialista” fervilhava em todo o país e em Setembro de 1924, a canhoneira Pátria, do comando do CT Jerónimo
Weinholtz Bivar, é enviada a Xangai para proteger a colónia portuguesa, que se
encontrava integrada na Concessão Internacional, desembarcando um destacamento
que colabora com marinheiros ingleses, americanos, franceses, japoneses e italianos
para manter a segurança do settlement, num modelo de presença e intervenção que
se repetirá nos anos seguintes com maior estrondo.
Em 1926-27 decorre uma guerra civil contra o frágil poder de
Pequim e os “senhores da guerra”, primeiro com
a “grande ofensiva para o Norte”
do exército comandado por Chiang Kai-Shek, seguida da rotura entre os dois
aliados com massacres dos dockers de Xangai e o triunfo final dos nacionalistas.
É neste quadro que ocorre a nova presença de navios da nossa Armada em Xangai, repetindo
o desembarque de forças na cidade, tal como acontecera em 1924.
Seguiu-se uma intervenção do Cte. António Cervaens Rodrigues sobre o papel da Marinha nos mares da China baseada na informação contida no livro do Comodoro Ivens Ferraz . Descreveu as circunstâncias que levaram à partida urgente do Cruzador “República” para Macau e à nomeação do autor do livro, então Capitão-de-Mar-e-Guerra, para o seu comando.
O Cruzador largou do Tejo sem ter sido possível o adequado aprontamento do navio, pelo que, pelo caminho, teve de escalar alguns portos para limpeza de fundo e proceder a reparações. Em Macau, Ivens Ferraz foi graduado em Comodoro e assumiu as funções de Comandante-em-Chefe das Forças Navais que compreendiam para além do Cruzador “República”, a Canhoneira ”Pátria” e a Lancha-Canhoneira “Macau”. A presença do Cruzador foi suficiente para que os incidentes com grevistas e piratas que actuavam nas águas do território diminuíssem e a vida retomasse a normalidade.
O orador abordou ainda a marcha lenta e vitoriosa do General Chiang Kai-Shek que partiu de Cantão rumo ao Norte e que, na sua aproximação de Xangai, provocou grande ansiedade na numerosa colónia estrangeira ali residente e levou à constituição de uma imponente força naval internacional pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Japão. Na ocasião, os portugueses de Xangai pedem a presença de uma unidade naval, pelo que o “República” foi para ali enviado, tendo desembarcado uma força mista de marinheiros e soldados para patrulhamento e defesa de posições chave na Concessão Internacional.
Não tendo ocorrido incidentes significativos, quando as forças nacionalistas
entraram na cidade, o navio regressa a Macau, depois de ter sido homenageado
pelo Cônsul-Geral em Xangai. Já em vésperas da partida de Macau, rumo a Moçambique,
o navio teve de arrostar com um fortíssimo tufão que o pôs em sério perigo. A perícia
e determinação do Comandante e da guarnição evitaram o pior. Após reparações em
Hong Kong a danos ligeiros o navio largou para Singapura, onde Ivens Ferraz
teve conhecimento da sua promoção, por distinção, a
Contra-Almirante.
