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AÇORES NO “CENTRO” DO ATLÂNTICO NORTE

No principio, muito antes dos chamados descobrimentos, o Atlântico Norte, que não se falava então no Atlântico Sul, não deveria ser navegado para lá da linha, entenda-se o semimeridiano, das ilhas Afortunadas, que hoje julgamos já serem, então, as Ilhas dos Açores, isto é para Oeste do arquipélago.
Porque havia monstros imensos no mar, e havia terríveis seres gigantescos que provocavam tormentas terríveis.
Por simples curiosidade lembro aqui que Marino de Tiro, no século primeiro depois de Cristo,
desenha um mapa-mundi com todas as terras por ele conhecidas, a Europa, a Ásia, o Médio Oriente e a Pérsia, a Índia, o Norte da África e a Etiópia, e o Mar Vermelho e o Índico, mas, no Atlântico... apenas as costas.

Figura 1 Mapa-mundi de Marino de Tiro

E desde então, ou já mesmo antes, os povos europeus e mediterrânicos acreditavam e afirmavam que não se podia navegar para lá, para Ocidente, das Ilhas Afortunadas, porque aí havia tempestades tremendas e animais monstruosos que fariam naufragar os navios que aí se
aventurassem.

Isto conto eu apesar de, como nos relatou António Galvão no seu “Compêndio dos Descobrimentos”, terem ocorrido, no passado século V a.C., as viagens dos irmãos cartagineses Hanão e Himilcão, o primeiro correu a costa África, para Sul e depois para o Mar Vermelho, e o segundo a costa da Hispânia e para Norte até à Inglaterre e à Irlanda, e dali para Ocidente, passando por um mar chão, com muitas baleias, as quais muito asssustaram os marinheiros.

É possível que, e há quem invoque o alegado aparecimento de moedas fenícias na ilha Terceira dos Açores para o comprovar, Hanão, ou outro cartaginês, poderia ter aportado nas ilhas Afortunadas, ou Azures, no regresso do seu périplo pelo Atlântico Norte.

Figura 2 Mapa portulano de Pedro Reinel, século XVI

As Ilhas Afortunadas, os Açores de hoje, estão situadas a meio, mais ou menos, do Atlântico
Norte, enquanto as ilhas da Madeira e Porto Santo e o arquipélago das Caanárias, mais a Sul,
se encontram mais próximos do continente africano e podem ser trampolins para aceder àquele arquipélago, e como tal foram consideradas e utilizadas pela Ordem de Cristo, logo após a sua fundação, e, depois, por D Henrique, seu administrador, quando avançou com o projeto dos “Descobrimentos”.

É então que surge a primeira prespetiva estratégica dos Açores, no centro do Atlântico Norte, como fulcro e base da navegação e exploração portuguesa, em busca da passagem para a Índia das especiarias, e do conhecimento das terras do novo mundo e da Ásia.

O Infante, que já tinha dado a Gonçalo Zarco a “ordem de achamento” das ilhas de Porto Santo e da Madeira, ordenou ao seu “moço de câmara” Gonçalo Velho que fosse à descoberta das ilhas dos Açores, as ilhas Afortunadas, no meio do mar Oceano, para aí colocar animais de pastagem e lançasse sementes a terra para, mais tarde as poder povoar e delas fazer portos de abrigo e de reabastecimento, para os navios que regressaassem ao reino, vindos das terras longínquas da Mina e do Sul do Atlântico, da África e, sabe-se lá se, também do outro lado do mar.

E, mais tarde no regresso dos navios que vinham da Índia e da China.

A importância estratégica destas ilhas atlânticas, voltou à ribalta plasmada na redação da bula papal de donação, de Alexandre VI, quando são utilizadas para origem da distância, em longitude, a que se deveriam limitar as navegações do reino de Portugal para ocidente, e, também como limite em latitude para as navegações dos dois reinos peninsulares: “... uma linha meridiana do polo norte até ao polo sul a 170 léguas para oeste das ilhas dos Açores e de Cabo Verde, e para sul da linha paralela que passa pelas ilhas dos Açores...”, assim, ou mais ou menos, se bem me lembro.
A propósito, Cristóvão Colombo terá passado por elas quando regressou da sua 1ª viagem ao Novo Mundo, constando que terá parado em Santa Maria, onde, apesar de estar munido de um salvo-conduto dado pelo rei D. João II, o lugar-tenente do capitão da ilha o tentou aprisionar.
Mais tarde, nos finais do seculo XVI, em resultado das guerras da Espanha com a Inglaterra, e
também com os Países-Baixos, os corsários e piratas britânicos e flamengos atacavam as naus
de retorno das Américas para a Península Ibérica, escolhendo como ponto de esncontro o
Arquipélago, já que o reino de Portugal era aliado do espanhol, os reis dos dois reinos eram a
mesma pessoa...

Figura 3 As áreas de controlo aéreo (FIR) e de busca e salvamento (MRCC e SRR) de Santa
Maria

O Arquipélago assume assim uma nova importância estratégica, ponto de controlo, policiamento e apoio da navegação mercante contra aqueles atos de pirataria ou de guerra.

É neste contexto que é criada, por D. João III, a Provedoria das Armadas Índias em todas as ilhas dos Açores, cuja principal finalidade era prestar assistência e provisões às naus vindas da Índia e da América, e também informá-las sobre a actividade dos piratas e corsários, franceses e britânicos, e dar-lhes defesa e proteção contra aqueles.

Esta Provedoria, de caráter hereditário tal como o Almirantado dos Pessanhas, manteve-se até
aos finais do século XIX, e, tal como aquele, tinha um caráter mais logístico que bélico, embora possuísse alguns homens de troço mar e algumas embarcações de boca aberta.

Com a participação de Portugal na 1ª Grande Guerra Mundial, a centralidade atlântica do arquipélago, torna-o alvo da atividade dos submersiveis alemães, e traz para os portos de Ponta Delgada e da Horta forças navais, aéreas e terrestres, sedimentando assim o seu valor estratégico militar, que voltou a crescer quando a Europa mergulhou na 2ª Grande Guerra Mundial, como base de apoio às operações de proteçãoe escolta dos navios mercantes transportadores dos géneros e material necessário às forças aliadas, americanos, britânicos e franceses, nomeadamente.

E aquando da 2ª Grande Guerra Mundial, aumentou consideravelmente a importância militar estratégica das ilhas, apesar do estatuto de neutralidade que Portugal então assumiu, levando
os aliados a nelas instalarem pontos de apoio naval em São Miguel e no Faial, e bases aéreas em Santa Maria e na Terceira, para o controlo e combate aos submarinos alemães, e apoio e reabastecimento das esquadras aéreas, principalmente americanas que se dirigiam para a Europa, Médio Oriente e Norte de África.

Figura 4 O porto de Ponta Delgada no periodo da 1ª GG, in https://byacores.com/wpcontent/
uploads/2017/07/historia-dos-acores.jpg

Com o passar dos séculos aumentou, dramaticamente, a quantidade de navios mercantes que,
vindos das Américas para a Europa, e vice-versa, sulcavam, e sulcam, as águas a Norte do Arquipélago, criando uma linha de comunicação bem densa, e, em simultaneo, com o desenvolvimento da aviação comercial igualmente importante com linhas comerciais intensas, cada vez mais, entre a América e a Europa e ainda mais a Ásia, esta área oceânica tornou-se uma das mais importantes para a salva-guarda da vida humana no mar (MRCC e SRR), que, desde o passado século XX, estão centradas no Arquipélago dos Açores, em conjunto com a área de controlo aéreo (FIR) de Santa Maria.

A importância estratégica do arquipélago no campo das comunicações, TSF e Rádio, marítimas e aéreas, conduzidas e garantidas pela Marinha Portuguesa, foi grande até ao desenvolvimento dos sistemas e equipamentos rádio, com o aumento dos alcances e automação dos comandos e controlos, bem como a utilização de redes de satélites de comunicação, que levaram à alteração do conceito com a desativação de estações radionavais, como a Estação Radionaval da Horta.

No campo das comunicações telefónicas de longa distância, TSF e Satélite, a concessão do serviço à empresa Marconi Portuguesa garantiu o serviço público e privado até que a evolução dos sistemas levaram à sua desativação.

O mesmo aconteceu com o sistema de navegação LORAN, cuja estação na ilha de Santa Maria foi desativada, por a sua utilização ter sido ultrapassada pelos sistemas GPS e DGPS.

Figura 5 Os Açores e as áreas da NATO no Atlântico.

Após o fim da 2ª Grande Guerra, as potências aliadas criam a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), organiazação militar que incluía as forças dos Estados Unidos da América, so Canada e quase todos os países da Europa Ocidental e mais a Turquia.

O arquipelago dos Açores viu reduzida a sua importãncia estratégica militar, para aquela organização e para as forças armadas norte-americanas, até à “queda do muro de Berlim” e dissolução da URSS e do nPacto de Varsóvia, passando a ser apenas um ponto de passagem e apoio ocasional para algumas forças aéreas e navais em projeção para os teatros de operaçao no Médio Oriente ou no Mediterrâneo; as bases francesas instaladas na ilha dsas Flores e na ilha de Sta. Mria foram desativadaa, a base aérea das Lajes da Terceira viu reduzido os seus efetivos americaanos e portugueses, e as POLNATO (depósitos de óleos e combustíveis) de Ponta Delgada e da Praia da Vitória foram desativados e mesmo os depósitos da base aérea foram reduzidos sendo alguns desmontados definitivamente. 

E a importância estratégica sob o ponto de vista dos transportes?

Então e a importância estratégica do ponto de vista económico?

Ficaram reeduzidas!

O aparecimento dos novos sistemas de navegaçção satelitários (GPS, GLONASS, os futuros GALILEU e BEIDOU2/COMPASS) tornaram mais fáceis aas deslocações aéreas seguindo as linhas ortodrómicas das rotas polares, foi o principal responsável por essa redução.

Sob o ponto de vista económico tarda em aparecer o recconhecimento, na ONU, do direito português à extensão da plarataforma continental dos Açores e à exploração dos recursos  depositados aí bem como no subsolo marítimo dessa plataforma. Essa exploração, e os nódulos minerais depositados no fundo do oceano são bem cobiçados por muitos e muitos países, estando protegido o interesse poetuguês, por enquanto, pelo Direito do Mar Alto, que os considera propriedade da humanidade, e assim sob a alçada da ONU.

E sob o ponto de vista das comunicações?

A alteração dos sistemas de comunicaações, já atrás referido, com o recurso aos satélites de comunicações , reduziu drasticamente a importância do arquipélago neste campo, tanto civil como militarmente, no ultimo quartel do século XX, mas, a necessidade de lançar novas redes, as antigas telefónicas e as atuais redes de fibra optica, para garantirem as comunicações informáticas entre os dois lados do Atlântico fez reaparecer a importância dos Açores para a amarração e passagem das linhas de fibra. E a necessidade de uma firme garantia da sua segurança reforça ainda mais a importância estratégica da região.

E a importância estratégica do ponto de vista científico?

No presente momentto, a ilha de Sta. Maria, onde está sediado o controlo da navegação aérea do centro do Atlântico Norte, e onde se teve como pista de para aterragem de emergência para os “shutle” americanos de apoio à estação espacial da NASA, está incluída no projeto europeu de exploração espacial, da ESA, tendo já instaladas as estruturas operacionais do Centro Tecnológico Espacial de Sta Maria , onde serão efetuadas experiências de microgravidade e testes de tecnologias necessarias para as futuras explorações espaciais europeoias. Está também a ser preparado para ponto de aterragem do “Spacerider”, veículo espacial reutilizável da Agência Espacial Europeia, e considerada a ilha como local para o futuro lançamennto dos engenhos espaciais da agência.

Figura 6 Sede da Agencia Espacial Portuguesa em S. Maria, in
https://www.bing.com/images/search?q=ilha+de+santa+maria+centro+de+explora%C3%A7
%C3%A3o+espacial&id

Considerando as atuais alterações na situação política e militar na Europa e no Médio Oriente e no Árticco, bem como as evoluções permanentes, quer nos transportes marítimos e aéreos, quer nas comunicações entre a Europa e as Amérricas e também na exploração do mar e do espaço, a importância estratégica dos Açores está a renovar-se e será oportuno aprovetá-la em proveito das economias da Região e do país.